Quando aparece a palavra alergia perto da alimentação, é fácil começar a olhar para cada prato com desconfiança.
Posso comer leite durante a gravidez? E amendoim? Ovo? Se eu evitar determinados alimentos, meu bebê terá menos chance de desenvolver alergia? E quando chegar a introdução alimentar, como oferecer esses alimentos com segurança?
São dúvidas bastante comuns — e existe um ponto importante para começar:
não há uma lista de alimentos alergênicos que toda gestante ou mãe que amamenta precise retirar da alimentação por precaução.
As restrições alimentares devem ter um motivo concreto e, quando envolvem alergias, precisam ser orientadas de maneira individualizada para que mãe e criança continuem recebendo os nutrientes necessários.
O que é uma alergia alimentar?
A alergia alimentar acontece quando o sistema imunológico reage a determinado alimento ou componente dele como se representasse uma ameaça.
Isso é diferente de simplesmente sentir desconforto depois de comer alguma coisa.
A Anvisa define a alergia alimentar como uma reação adversa provocada por uma resposta imunológica específica após o consumo de determinado alimento. As manifestações podem envolver pele, sistema digestivo, sistema respiratório ou sistema cardiovascular e variar bastante de intensidade.
Qualquer alimento pode causar uma reação em uma pessoa sensível, mas alguns aparecem com maior frequência entre os casos de alergia.
Entre eles estão:
- leite;
- ovos;
- amendoim;
- soja;
- trigo;
- peixes;
- crustáceos;
- castanhas e outras oleaginosas.
O Ministério da Saúde também reconhece esses alimentos entre os principais envolvidos em alergias alimentares.
Isso não significa, porém, que eles sejam alimentos "ruins" ou que devam ser retirados preventivamente da alimentação de todas as famílias.
Alergia alimentar e intolerância são a mesma coisa?
Não.
Essa confusão é bem comum.
Na alergia alimentar, existe participação do sistema imunológico.
Já uma intolerância alimentar geralmente está relacionada à dificuldade do organismo em digerir ou metabolizar determinado componente do alimento e não ocorre pelo mesmo mecanismo imunológico.
O Ministério da Saúde usa justamente essa diferença para separar alergias de intolerâncias em suas orientações sobre alimentação infantil.
Um exemplo conhecido é a lactose.
Ter intolerância à lactose e ter alergia à proteína do leite de vaca são situações diferentes — e o cuidado alimentar também pode ser diferente.
Por isso, não é uma boa ideia retirar grupos inteiros de alimentos apenas com base em sintomas percebidos em casa.
Preciso evitar alimentos alergênicos durante a gravidez?
De maneira geral, não.
O Ministério da Saúde informa que não é recomendada a restrição da dieta materna durante a gestação como estratégia para prevenir o desenvolvimento de alergias alimentares na criança.
Então não é necessário excluir leite, ovo, peixe, amendoim ou outros alimentos potencialmente alergênicos apenas porque você está grávida.
A situação muda quando a própria gestante tem uma alergia diagnosticada, naturalmente.
Nesse caso, o alimento responsável pela reação precisa continuar sendo evitado de acordo com as orientações da equipe que acompanha a gestação.
E aí entra outro cuidado importante: retirar um alimento pode significar retirar também uma fonte relevante de proteínas, cálcio, vitaminas ou outros nutrientes.
Por isso, dependendo da restrição, obstetra e nutricionista podem ajudar a encontrar substituições adequadas.
E se eu já tenho alergia alimentar?
Se você possui uma alergia conhecida, gravidez não é momento de "testar só um pouquinho para ver se passou".
Continue seguindo as orientações médicas para evitar o alimento responsável pela reação e avise a equipe do pré-natal sobre a alergia.
Também vale redobrar a atenção aos rótulos.
No Brasil, a Anvisa determina que alimentos embalados tragam advertências específicas quando contêm ou podem conter determinados alergênicos.
**ALÉRGICOS: PODE CONTER AMENDOIM**
A expressão "pode conter" pode aparecer quando existe possibilidade de contaminação cruzada durante a produção.
Para quem tem alergia diagnosticada, essa informação não é um detalhe do rótulo. É uma parte importante da segurança alimentar.
Cortar alimentos durante a amamentação previne alergias?
Também não existe recomendação para que todas as mulheres que amamentam façam dietas restritivas para tentar evitar alergias nos filhos.
O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos orienta que, como prática geral, não se excluam alimentos da alimentação da mulher durante a amamentação sem uma razão específica.
Então nada de abandonar leite, ovo, chocolate, feijão e metade da cozinha porque alguém falou que "vai dar alergia ou cólica no bebê".
Se houver sintomas que levantem suspeita de alergia, a situação precisa ser investigada.
Um bebê que mama só no peito pode ter alergia alimentar?
Pode.
Algumas proteínas provenientes da alimentação materna podem entrar em contato com o bebê por meio do leite materno.
O Guia Alimentar do Ministério da Saúde explica que isso pode acontecer e cita sinais como presença de sangue nas fezes, refluxo e irritabilidade entre manifestações que merecem avaliação médica.
Mas atenção: esses sintomas não significam automaticamente alergia alimentar.
Refluxo, choro e desconforto intestinal, por exemplo, também podem ocorrer por diversos outros motivos durante os primeiros meses de vida.
Por isso, fazer uma dieta de exclusão por conta própria pode acabar criando um problema nutricional sem resolver a causa dos sintomas.
Se o bebê tiver alergia, precisa parar de amamentar?
Não necessariamente — e, em muitos casos, não.
O Ministério da Saúde orienta que, quando uma alergia alimentar é confirmada em uma criança amamentada, a amamentação pode continuar.
Dependendo do alimento envolvido e da avaliação médica, pode ser necessária a retirada daquele alimento da alimentação materna.
Essa exclusão precisa ser bem planejada.
Se for necessário retirar leite e derivados, por exemplo, é importante avaliar como os nutrientes que vinham desses alimentos serão obtidos por outras fontes.
É bem diferente de simplesmente abrir a geladeira e decretar:
Quando os alimentos potencialmente alergênicos podem entrar na alimentação do bebê?
A introdução da alimentação complementar é recomendada a partir dos 6 meses, juntamente com a continuidade do aleitamento materno.
E os alimentos potencialmente alergênicos não precisam, de maneira geral, ficar esperando até a criança completar um ou dois anos.
O Ministério da Saúde informa que alimentos como ovo e peixe podem ser oferecidos a partir dos 6 meses, assim como outros alimentos da alimentação complementar. Oleaginosas, como amendoim e castanhas, também podem fazer parte da alimentação, desde que apresentadas em forma segura para a idade, como trituradas ou bem picadas.
A antiga estratégia de atrasar por muito tempo a introdução desses alimentos para tentar evitar alergias não é mais a orientação geral adotada pelo Guia Alimentar brasileiro.
Mas como oferecer amendoim e castanhas sem risco de engasgo?
Aqui existem duas questões diferentes: alergia e engasgo.
Uma criança pode não ter qualquer alergia ao amendoim e ainda assim correr risco de engasgar com um amendoim inteiro.
Por isso, alimentos duros e pequenos precisam ser oferecidos em textura compatível com a capacidade da criança.
O Guia Alimentar recomenda que amendoim, castanhas e nozes sejam oferecidos triturados ou bem picados, conforme a fase do desenvolvimento alimentar.
Pasta adequada de oleaginosas também pode ser uma forma utilizada dependendo da consistência e da alimentação da criança, mas o formato precisa ser seguro e apropriado para a idade.
Meu filho tem histórico familiar de alergia. Preciso fazer diferente?
Uma história familiar de alergias merece ser conversada durante o acompanhamento pediátrico, especialmente quando existe histórico importante de doenças alérgicas.
Isso não significa automaticamente que a criança terá alergia alimentar ou que todos os alimentos potencialmente alergênicos devam ser adiados.
O Ministério da Saúde orienta que crianças com maior risco ou história familiar sejam acompanhadas com atenção e que a introdução dos alimentos possa ser organizada de maneira gradual e individualizada.
O pediatra ou nutricionista infantil pode orientar a melhor estratégia para aquela criança.
Quais sintomas podem aparecer em uma alergia alimentar?
As manifestações são bastante variadas.
Podem ocorrer sintomas na pele, no sistema digestivo, nas vias respiratórias ou até alterações cardiovasculares.
Entre os sinais descritos pelas autoridades de saúde estão:
- urticária;
- coceira;
- inchaço nos lábios ou na língua;
- náusea;
- vômito;
- dor abdominal;
- diarreia;
- tosse;
- chiado no peito;
- dificuldade para respirar;
- tontura.
Nem toda reação acontece imediatamente e nem toda alergia produz exatamente os mesmos sintomas.
Por isso, o diagnóstico não deve ser feito apenas comparando sintomas com uma lista da internet.
Quando uma reação alérgica é uma emergência?
Algumas alergias alimentares podem causar anafilaxia, uma reação grave que precisa de atendimento imediato.
Sinais de alerta incluem:
- dificuldade para respirar;
- chiado intenso;
- inchaço importante da língua ou da garganta;
- sensação de garganta fechando;
- tontura intensa;
- desmaio;
- queda importante da pressão;
- associação rápida de sintomas em diferentes partes do corpo.
A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde destaca que a anafilaxia pode evoluir rapidamente e que avaliação e tratamento imediatos são fundamentais.
Nessa situação, não espere para ver se os sintomas vão melhorar sozinhos. Procure atendimento de emergência.
Suspeitei de alergia. Devo retirar o alimento?
Se houve uma reação importante logo após determinado alimento, interromper novas exposições até receber orientação médica pode ser necessário.
O que não é recomendado é iniciar sucessivas dietas de exclusão por conta própria por sintomas vagos.
"agora teve refluxo, vou cortar ovo e trigo também."
Quando percebemos, a criança ou a mãe está em uma alimentação extremamente restrita sem diagnóstico definido.
O Ministério da Saúde alerta para o risco de comprometimento nutricional em crianças com alergias ou intolerâncias e orienta acompanhamento profissional para substituir corretamente o alimento que precisar ser excluído.
Como o diagnóstico de alergia alimentar é feito?
Não existe um único exame que responda sozinho por todas as situações.
A investigação pode envolver:
- história clínica detalhada;
- relação entre alimento e sintomas;
- exame físico;
- exames específicos quando indicados;
- estratégias de exclusão e reintrodução orientadas pelo profissional;
- testes de provocação em situações apropriadas e sob supervisão especializada.
Por isso, exames isolados não devem ser usados para montar listas enormes de alimentos "proibidos" sem interpretação clínica.
Se existe suspeita de alergia alimentar na criança, converse com o pediatra. Dependendo do caso, pode ser necessário acompanhamento com alergista e nutricionista.
Aprender a ler rótulos vira parte da rotina
Quando existe uma alergia confirmada, a leitura do rótulo deixa de ser opcional.
Além de procurar o nome do alimento, fique atento às advertências específicas para alergênicos.
A regulamentação brasileira exige informações sobre ingredientes e alergênicos justamente para ajudar pessoas com alergias alimentares a realizar escolhas mais seguras.
Mesmo produtos que aparentemente não teriam determinado ingrediente podem carregar a indicação "pode conter" quando existe possibilidade de contaminação cruzada.
Também vale criar o hábito de reler embalagens de produtos já conhecidos, porque formulações podem mudar.
Uma alimentação segura não precisa virar uma alimentação cheia de medo
A ideia não é olhar para leite, ovo, trigo, peixe ou amendoim como inimigos.
Para a maioria das pessoas, eles podem fazer parte normalmente de uma alimentação variada.
Na gestação, não existe recomendação geral para eliminar alimentos alergênicos apenas para tentar evitar alergias no bebê. Durante a amamentação, também não é indicado iniciar dietas restritivas preventivamente. E, na introdução alimentar, alimentos potencialmente alergênicos podem fazer parte da alimentação a partir do momento adequado e em consistência segura.
Quando existe uma alergia verdadeira, aí sim o cuidado muda.
O objetivo passa a ser evitar o alimento responsável pela reação sem deixar que a restrição comprometa a qualidade da alimentação.
E é justamente por isso que diagnóstico e acompanhamento fazem tanta diferença.
Nem toda vermelhidão é alergia.
Nem todo desconforto é intolerância.
Resumindo
Durante a gestação: não retire alimentos alergênicos preventivamente sem indicação profissional.
Durante a amamentação: dietas de exclusão também não são recomendadas de rotina. Se houver alergia confirmada no bebê, a amamentação geralmente pode continuar e a alimentação materna pode ser ajustada com orientação.
Na introdução alimentar: alimentos potencialmente alergênicos podem ser oferecidos a partir dos 6 meses, de maneira apropriada para a idade e sem adiar sua introdução indiscriminadamente.
Se houver suspeita de alergia: procure avaliação antes de iniciar grandes restrições alimentares.
Se houver dificuldade para respirar, inchaço importante de língua ou garganta, desmaio ou outros sinais de reação grave: procure atendimento de emergência imediatamente.
Fontes consultadas
- Ministério da Saúde — Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos.
- Ministério da Saúde — Fundamentos para as diretrizes e recomendações do Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos.
- Ministério da Saúde — Saúde da Criança: aleitamento materno e alimentação complementar.
- Ministério da Saúde — Alimentação saudável na primeira infância.
- Anvisa — Esclarecimentos sobre alergias alimentares e outras reações adversas a alimentos.
- Anvisa — Rotulagem de alimentos alergênicos.
- Biblioteca Virtual em Saúde / Ministério da Saúde — Anafilaxia e alergia alimentar.
Conteúdo informativo e educativo. Dietas de exclusão durante a gestação, amamentação ou infância devem ser feitas com orientação profissional quando houver indicação. Reações com dificuldade para respirar, inchaço de língua ou garganta, tontura intensa ou desmaio precisam de atendimento imediato.
