Decidir tentar ter um bebê pode trazer entusiasmo, planos e expectativa.

Mas, quando os meses passam e o teste continua negativo, essa expectativa pode começar a dividir espaço com ansiedade, frustração, medo e muitas perguntas.

“Quanto tempo ainda vai demorar?”

Esses pensamentos podem aparecer mesmo quando a tentativa começou há pouco tempo.

E sentir ansiedade nesse período não significa necessariamente que exista algum problema de saúde mental. Tentar engravidar envolve uma espera sobre algo que é importante e, ao mesmo tempo, difícil de controlar.

O problema é quando essa espera começa a ocupar praticamente todos os espaços da vida.

Por que tentar engravidar pode gerar tanta ansiedade?

Existe algo particularmente difícil na tentativa de engravidar: você pode fazer planejamento, acompanhar o ciclo e cuidar da saúde, mas não consegue determinar exatamente quando a gravidez acontecerá.

A cada mês pode surgir um novo ciclo de emoções:

expectativa → espera → teste → resultado → frustração → nova tentativa.

Para algumas pessoas, esse processo começa a ficar cada vez mais pesado.

A Organização Mundial da Saúde reconhece que dificuldades relacionadas à fertilidade podem provocar impacto importante no bem-estar emocional e estão associadas a situações de ansiedade, depressão, baixa autoestima, estigma e sofrimento social.

É normal ficar ansiosa esperando o teste?

Sentir alguma ansiedade é compreensível.

A dúvida sobre uma possível gravidez, a atenção aos sinais do corpo e a expectativa pelo dia do teste podem deixar qualquer pessoa mais apreensiva.

O que merece atenção é quando a ansiedade começa a causar sofrimento significativo.

Por exemplo:

  • pensar praticamente o dia inteiro sobre engravidar;
  • dificuldade para trabalhar ou se concentrar;
  • problemas frequentes para dormir;
  • medo intenso de receber outro resultado negativo;
  • crises de choro constantes;
  • irritabilidade que começa a afetar relacionamentos;
  • evitar outras pessoas por causa do assunto;
  • sentir culpa ou vergonha;
  • perder interesse por atividades que antes davam prazer.

A OMS diferencia a ansiedade ocasional de quadros em que medo e preocupação se tornam intensos, difíceis de controlar e começam a interferir na vida cotidiana.

Não é preciso esperar chegar ao limite para procurar ajuda.

A espera entre a ovulação e o teste pode ser especialmente difícil

Quem está tentando engravidar provavelmente conhece aquele período em que qualquer sensação do corpo parece ganhar um significado diferente.

“Será um sintoma?”

O problema é que muitos sinais do início de uma possível gravidez também podem acontecer normalmente ao longo do ciclo menstrual.

Tentar interpretar cada pequena mudança pode aumentar ainda mais a ansiedade.

Uma estratégia pode ser definir antecipadamente quando será feito o teste e tentar evitar testes repetidos antes desse momento.

Isso não elimina a expectativa, mas pode reduzir um pouco o ciclo de checagem constante.

Tentar controlar tudo pode acabar aumentando a pressão

Aplicativos de ciclo, testes de ovulação e calendários podem ser ferramentas úteis.

Mas existe uma diferença entre usar informação para ajudar e sentir que cada relação sexual virou uma tarefa com horário marcado.

Se acompanhar cada detalhe estiver aumentando muito o estresse, vale conversar com o parceiro ou parceira sobre como tornar esse processo menos mecânico.

Tentativas de engravidar também fazem parte da vida do casal.

Não precisam se transformar exclusivamente em um projeto de reprodução.

Quando alguém próximo anuncia uma gravidez

Esse pode ser um dos momentos emocionalmente mais complicados para quem está tentando.

É possível ficar feliz por outra pessoa e, ao mesmo tempo, sentir tristeza pela própria situação.

Esses sentimentos não são incompatíveis.

“Eu queria estar feliz, mas fiquei mal.”

Isso não faz de você uma pessoa ruim.

Às vezes, notícias de gravidez, chás de bebê ou conversas sobre filhos simplesmente chegam em um momento emocionalmente difícil.

Respeitar seus próprios limites também faz parte do cuidado.

Cuidado com a culpa

Quando a gravidez demora, uma pergunta aparece com frequência:

“O que eu estou fazendo errado?”

Na maioria das vezes, essa é uma forma injusta de colocar toda a responsabilidade sobre si mesma.

Fertilidade depende de muitos fatores e, quando existe um casal tentando engravidar, as causas de dificuldade podem estar relacionadas à mulher, ao homem, a ambos ou até permanecer sem uma explicação identificável.

A OMS reforça que a infertilidade pode envolver fatores masculinos, femininos ou inexplicados.

Por isso, investigar fertilidade não deve ser uma responsabilidade exclusiva da mulher.

“Relaxa que acontece” nem sempre ajuda

Quem está tentando engravidar provavelmente já ouviu alguma versão de:

“Fulana parou de tentar e engravidou.”

Essas frases normalmente são ditas com boa intenção, mas podem aumentar a culpa.

A ansiedade não é um botão que você simplesmente desliga.

E não conseguir relaxar não significa que você seja responsável pela demora para engravidar.

A dificuldade para conceber pode ter diversas causas biológicas, e não deve ser reduzida simplesmente ao estado emocional da pessoa.

O parceiro ou parceira também pode estar sofrendo

Nem sempre as duas pessoas demonstram ansiedade da mesma maneira.

Enquanto uma pode querer conversar o tempo inteiro sobre tentativas e exames, a outra pode preferir ficar em silêncio.

Isso não significa necessariamente falta de interesse.

Pode ser apenas uma maneira diferente de lidar com a situação.

Tentem preservar espaços que não tenham relação com gravidez

Quando o desejo de engravidar ocupa muito espaço, existe o risco de a vida inteira começar a girar em torno dele.

Pode ajudar preservar momentos em que fertilidade não seja o assunto principal.

Por exemplo:

  • sair juntos;
  • assistir algo;
  • encontrar amigos;
  • viajar;
  • cozinhar;
  • praticar alguma atividade;
  • manter hobbies;
  • simplesmente conversar sobre outras coisas.

Isso não significa desistir ou fingir que a tentativa não importa.

Significa lembrar que vocês continuam sendo pessoas e um casal para além dela.

Redes sociais podem aumentar a pressão

Enquanto você está esperando um teste positivo, pode parecer que existe uma gravidez nova no Instagram todos os dias.

É importante lembrar que redes sociais mostram momentos selecionados da vida das outras pessoas.

mas não necessariamente vê:

  • quanto tempo aquela pessoa tentou;
  • tratamentos;
  • perdas;
  • medo;
  • exames;
  • dificuldades.

Se determinado tipo de conteúdo estiver causando sofrimento, diminuir temporariamente a exposição pode ser uma atitude legítima de autocuidado.

E os grupos de tentantes?

Encontrar pessoas vivendo algo parecido pode ser acolhedor.

Grupos podem oferecer:

  • identificação;
  • troca de experiências;
  • apoio;
  • sensação de não estar sozinho.

Mas existe outro lado.

Alguns grupos também podem aumentar:

  • comparação;
  • ansiedade;
  • interpretação excessiva de sintomas;
  • circulação de informações sem evidência;
  • pressão para realizar testes ou tratamentos.

Use esses espaços como apoio, não como substitutos de orientação médica.

**“existe necessariamente infertilidade”.**

A OMS define infertilidade como a ausência de gravidez após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares sem contracepção.

Mas o momento adequado para procurar avaliação pode mudar conforme idade, histórico de saúde e outros fatores.

Por exemplo, sociedades de medicina reprodutiva recomendam avaliação mais precoce para algumas pessoas, especialmente conforme a idade aumenta ou quando existem fatores conhecidos que podem afetar fertilidade.

Isso significa que você não precisa simplesmente esperar indefinidamente.

Se estiver preocupado, conversar com um ginecologista ou especialista em reprodução humana é válido mesmo antes de preencher uma definição formal de infertilidade.

Procurar ajuda não significa começar fertilização in vitro

Existe um medo comum de procurar um especialista e automaticamente entrar em um processo complexo de reprodução assistida.

Não funciona necessariamente assim.

A avaliação inicial normalmente busca entender:

  • histórico de saúde;
  • ciclos menstruais;
  • ovulação;
  • saúde reprodutiva;
  • histórico do parceiro, quando houver;
  • possíveis fatores que possam estar dificultando a concepção.

A diretriz global da OMS publicada em 2025 propõe uma abordagem progressiva para investigação e tratamento, começando pelas necessidades e características de cada pessoa ou casal.

Quando procurar ajuda psicológica?

Você não precisa ter um diagnóstico para conversar com um psicólogo.

Vale considerar apoio quando essa fase começar a provocar sofrimento frequente.

Alguns sinais podem incluir:

  • ansiedade difícil de controlar;
  • tristeza persistente;
  • sensação de desesperança;
  • culpa constante;
  • isolamento;
  • conflitos frequentes no relacionamento;
  • dificuldade para trabalhar;
  • alterações importantes no sono;
  • perda de interesse pelas coisas;
  • sensação de que sua vida está parada enquanto espera engravidar.

A nova diretriz mundial de infertilidade da OMS destaca justamente a importância do apoio psicossocial contínuo para pessoas afetadas por dificuldades de fertilidade.

Buscar apoio psicológico não significa admitir derrota.

Pode simplesmente ser uma maneira de atravessar uma fase difícil com mais suporte.

E se a ansiedade ficar muito intensa?

Se houver sofrimento emocional intenso, crises frequentes ou pensamentos de se machucar ou de que a vida não vale a pena, procure ajuda profissional imediatamente.

No Brasil, serviços de saúde, incluindo unidades do SUS e serviços de emergência, podem orientar e oferecer atendimento conforme a necessidade.

Em situações de risco imediato, procure atendimento de urgência.

Como a família pode ajudar uma tentante?

Às vezes, familiares querem ajudar, mas acabam aumentando a pressão.

“Por que ainda não engravidaram?”

podem machucar mais do que parecem.

Uma rede de apoio pode ajudar de forma muito mais simples:

  • respeitando a privacidade;
  • ouvindo sem oferecer soluções o tempo todo;
  • evitando comparações;
  • não culpando ninguém;
  • não contando histórias de “quem engravidou quando desistiu”;
  • perguntando como pode ajudar;
  • respeitando quando a pessoa não quiser falar sobre o assunto.

Também é importante não colocar todo o peso emocional da tentativa sobre a mulher.

Você não precisa transformar todo mês em uma prova

É compreensível desejar muito aquele teste positivo.

Mas um resultado negativo não significa que você falhou.

E também não diz nada sobre o seu valor, sua capacidade de formar uma família ou o que acontecerá no próximo ciclo.

Quando a tentativa começa a pesar demais, talvez a pergunta não precise ser:

**“Como posso atravessar essa espera com mais apoio?”**

Essa resposta pode envolver o parceiro, família, amigos, profissionais de saúde e, quando necessário, acompanhamento psicológico.

Você não precisa carregar tudo sozinho.

Para guardar

  • É comum que a tentativa de engravidar venha acompanhada de expectativa e ansiedade.
  • Resultado negativo não significa automaticamente infertilidade.
  • A OMS reconhece que dificuldades para engravidar podem afetar significativamente o bem-estar emocional.
  • Fertilidade não é responsabilidade exclusiva da mulher.
  • Não existe evidência para simplesmente reduzir toda dificuldade para engravidar a “falta de relaxamento”.
  • Limitar checagens excessivas, comparações e conteúdos que aumentam ansiedade pode ajudar algumas pessoas.
  • Procurar apoio psicológico é válido mesmo sem diagnóstico.
  • Se houver preocupação com fertilidade, converse com um profissional de saúde sobre o momento adequado para investigação.
  • A família pode ajudar mais ouvindo e respeitando limites do que oferecendo palpites.

Ansiedade pode impedir uma pessoa de engravidar?

A fertilidade é influenciada por muitos fatores, e a dificuldade para engravidar não deve ser atribuída automaticamente à ansiedade. Dizer para uma pessoa simplesmente “relaxar” pode gerar ainda mais culpa.

É normal ficar triste todo mês quando a menstruação chega?

Frustração e tristeza podem acontecer quando existe expectativa de gravidez. Se esse sofrimento ficar muito intenso, persistente ou começar a interferir na rotina, vale procurar apoio.

Quanto tempo tentando engravidar é considerado infertilidade?

A OMS define infertilidade como não conseguir uma gravidez depois de 12 meses ou mais de relações sexuais regulares sem contracepção. O momento de procurar avaliação pode ser antecipado dependendo da idade e do histórico de saúde.

Preciso esperar um ano para conversar com um médico?

Não necessariamente. Idade, histórico menstrual, condições de saúde e outros fatores podem justificar avaliação mais precoce. Se estiver preocupado, vale conversar com um profissional.

Meu parceiro também deve ser avaliado?

Quando existe um parceiro fornecendo espermatozoides, a investigação pode envolver ambos. Dificuldades de fertilidade podem ter fatores masculinos, femininos, combinados ou permanecer sem causa identificada.

Quando devo procurar um psicólogo?

Não é necessário esperar que a ansiedade fique insuportável. Se a tentativa estiver trazendo sofrimento importante, prejudicando sono, trabalho, relacionamentos ou qualidade de vida, apoio psicológico pode ser útil.

Fonte principal

Texto fornecido para produção do artigo — “Ansiedade na gravidez e pós-parto: como lidar com esses sentimentos”.

O material serviu como ponto de partida para a discussão sobre ansiedade e estratégias de apoio.

Como o objetivo editorial foi posteriormente esclarecido como ansiedade durante as tentativas de engravidar, foram excluídos os trechos relativos à gravidez, pós-parto, azia, fissuras mamilares e mastite.

Fontes complementares

Organização Mundial da Saúde — Infertility. Atualizado em 28 de novembro de 2025.

Utilizado para definição de infertilidade, fatores envolvidos e impactos emocionais e psicossociais.

Organização Mundial da Saúde — Guideline for the prevention, diagnosis and treatment of infertility. 2025.

Utilizada para informações sobre cuidado centrado na pessoa e necessidade de suporte psicossocial durante a jornada da infertilidade.

Organização Mundial da Saúde — Anxiety disorders. 2025.

Utilizada para diferenciar ansiedade ocasional de quadros com sofrimento significativo e prejuízo da vida cotidiana.

American Society for Reproductive Medicine — Evidence-Based Response to Infertility.

Utilizada como referência complementar sobre avaliação de fertilidade e importância do suporte emocional durante investigação e tratamento.

Aviso importante

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui avaliação de fertilidade, diagnóstico ou acompanhamento de profissionais de saúde ou saúde mental.

Se a tentativa de engravidar estiver causando sofrimento emocional intenso ou interferindo significativamente na sua rotina, converse com um profissional de saúde.